Eu comecei de novo esse ano. Mas não deixei pra trás nada daquilo que conquistei.
Eu comecei de novo, mas levei comigo tudo que aprendi com os erros. Todos os sorrisos que vieram com os acertos. Lembro-me também das lágrimas, não nego, que me fizeram tanto sofrer. Mas acho que para achar a felicidade diante de cada janela, também é preciso ter as tempestades. E nelas, há uma beleza exótica e potente.
E eu espero, que começando de novo, eu tenha diante de minha janela novas maravilhas, mas conserve diante delas aquelas velhas mudas, sejam elas de árvores majestosas, de flores miúdas, da grama que deixa o meu jardim mais verde, ou mesmo os gravetos que vem no biquinho dos pássaros. E quero que meu jardim continue assim, meu... Meu jardim secreto, de frente para o mundo, junto com os sonhos.
Bem, estou falando assim de jardins, mas é que no início desse ano, no teatro, eu procurei um texto que representasse o que eu sentisse e esse, chamado ''A Arte de ser feliz'', da Cecília Meireles, retratou bem o que eu tento fazer todos os dias na minha vida. Ver, diante das minhas janelas, que misturam o antigo e o novo, os sonhos e a realidade, as minhas pequenas felicidades certas, os meus motivos para sorrir todos os dias.
Então decidi também mostrá-lo a mais pessoas, para que estas também vejam todos os dias, ao abrirem suas janelas, suas pequenas felicidades certas.
A
arte de ser feliz
Houve
um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não
morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de
seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília
Meireles